Incansáveis Tentativas

Wednesday, November 28, 2007

(Indi)Gestão Pessoal

Até pouco tempo atrás, falar em formatura me deixava levemente desesperado. O que vai acontecer comigo depois de formado? O que poderia esperar um Zé-Ninguém sem experiência, com o diploma na mão, numa cidade sem cultura de design e teoricamente sem oportunidades? Será que esse tal de “mercado de trabalho” vai gostar de mim do jeito que eu sou? Eu precisava de um plano.

Deve-se levar em conta que a minha única experiência profissional, além daqueles tradicionais “trabalhos no diminutivo” (folderzinho, cartãozinho, cartazinho, convitezinho, etc.), foi um traumatizante estágio em que os únicos aprendizados foram: que o conhecimento teórico e formação não valem nada e que eu não era bom o suficiente.

Depois desse rico contato com o mercado, eu tinha apenas duas certezas: de que seria muito difícil voltar a gostar de fazer um estágio na vida e de que eu deveria aprender tudo que era preciso em um ano e meio para não virar estatística de desemprego. Havia decidido, então, me dedicar totalmente à faculdade e às leituras sobre design.

Bastaram duas semanas de ócio pra perceber que meio período dentro de casa me enlouqueceria em pouco tempo. Lá estava eu novamente procurando um estágio. E não precisava de muito: “Não precisa nem me pagar, basta gostar de mim e me ensinar alguma coisa”, eu pensava. Saí procurando por anúncios de vagas de estágio. Mandei currículo e portfólio até para agências e escritórios que sequer estavam procurando estagiários. Nenhuma resposta. “Eu devo realmente ser uma grande porcaria”, era só o que eu podia pensar.

Foi então que, dentre outras tantas tentativas, fui chamado para uma entrevista. Depois de cinco dias, a resposta: eu era o novo “Diretor de Criação Junior Não Remunerado”. Foi só o que apareceu, mas parecia realmente bom. E era. Nos primeiros dias, fui informado de que eu ganharia uma bolsa de estágio naquele mesmo mês. Sem falar da paciência, das explicações e, acima de tudo, dos elogios e de ter o potencial reconhecido por pessoas que sabem o que fazem.

Era tudo que eu queria. Tudo que eu precisava. Sempre tive interesse pela publicidade e essa era a oportunidade perfeita para conhecer mais a fundo o dia-a-dia de uma agência. E eu adorei. A cada dia, as diferenças entre as duas áreas ficam mais evidentes. Apesar de muito próximas, as regras e ideologias são bem diferentes. Talvez esse seja o único fator que me cause inquietação, pois o meu comodismo e a possibilidade de crescimento na empresa são capazes de me fazer permanecer lá por muito tempo. Por um lado, é o que eu quero: estabilidade. Por outro, a vontade de conhecer outras culturas e de trabalhar em diferentes áreas, coisa que eu reprimi por muito tempo, acaba sempre voltando uma hora ou outra.

Essa vontade de viver vidas diferentes integra outra parte de mim que com o tempo eu fui deixando de lado. O design entrou na minha vida muito mais como um “plano B”, mas, com o tempo, acabou se tornando uma prioridade e uma paixão. A possibilidade de trabalhar com as muitas e diferentes áreas do design é quase como atuar. O designer pode ser diferentes profissionais, sendo um só. Como o ator pode ser muitas outras pessoas sendo apenas um. E, quando se cansar, é só “ser” outra coisa. Creio que o que me encanta são as alternativas.

Tentar prever o que eu estarei fazendo daqui a cinco anos é ter que escolher: empregado ou dono do meu próprio nariz? Estabilizado ou viajante? Acomodado ou empreendedor? Ter um nome ou fazer parte de uma equipe e contribuir para a construção de outro? Arte ou design?

Não costumo criar oportunidades, apenas tento me preparar para quando alguma delas aparecer e talvez esse seja o meu defeito. Ser imediatista e acomodado não me permite enxergar além de duas semanas. Por isso, todos os planos para o futuro começam com “se”: se tudo der certo, me formo ano que vem. Se eu tiver dinheiro, eu viajo. Se eu me der bem nesse estágio e ele virar um emprego, eu continuo assim. Se eu me cansar, eu procuro outro. Se eu tiver oportunidade de atuar, eu vejo o que faço. Se eu tiver tempo, eu invisto na minha marca pessoal. Se eu criar vergonha na cara, eu estudo sobre tipografia, web e diagramação, pelo menos o básico. Mas o meu plano infalível mesmo é este: se eu ainda estiver vivo amanhã, penso sobre o futuro de novo e mudo tudo mais uma vez.

2 Comments:

Blogger BLOG do CHICO LINGÜIÇA said...

aio futuro... eu não gosto nem de ficar pensando... parece que o destino será sempre esse: estar num determinado lugar se uma cultura formada pra tantas áreas non-gratas como as nossas... vamo embora eu brigamos com o mercado?

ô pergunta que não cala...

abração

8:00 PM  
Blogger kallani said...

AMEI o teu texto... e fiquei com medo, também. Tomara que amanhã estejamos todos vivos para pensar no depois-de-amanhã :)

11:00 AM  

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